Que terminem os jogos!

Postado em jul 6, 2012 no Clima Organizacional, Gestão de Pessoas, Liderança

Estes jogos já têm o resultado final definido mesmo antes de começarem: ninguém ganha. Em todo ambiente corporativo as pessoas praticam jogos políticos, sendo que o tempo e a energia investidos nesse padrão de comportamento são imensos. É justamente daí que vem a perda, pelo menos é o que revelou uma pesquisa com 700 pessoas em eventos do Conarh, HSM.

Quem já não teve a sensação de déjà vu ao mudar de empresa e perceber que mesmo em um ambiente de trabalho diferente com novos colegas e processos ter a impressão de vivenciar as mesmas situações em outro momento? Isto ocorre porque os jogos políticos são os mesmos, o que muda na verdade são apenas as pessoas.

Mauricio Goldstein e Philip Read, no seu livro Jogos Políticos nas Empresas, abordam os males que essa prática traz às pessoas e aos resultados organizacionais. Se esse tipo de jogo possui tantos malefícios por que cargas d´água eles acontecem com tanta frequência?

Levitt e Dubner no livro Freakonomics nos dá uma pista super importante: As pessoas respondem a incentivos. Essa afirmação é a chave para começarmos a entender os estudos de Maurício e Philip, no qual eles também são categóricos ao relatarem que está em nossa natureza jogar quando estamos em grupo e principalmente quando há estresse, ansiedade e prêmios a serem conquistados, como por exemplo, um favor do chefe, o financiamento para um projeto, um novo contrato e assim por diante.

O seriado Game of Thrones que está fazendo um sucesso estrondoso em todo mundo teve seu nome traduzido em português para Guerra dos Tronos, talvez seu título original possa representar de maneira mais eficaz a essência da obra e servir de analogia sobre o que acontece no mundo empresarial.

A trama narra uma história de lordes, damas, soldados e mercenários que disputam o poder para conquistar o reino. Tudo permeado com tragédias e traições. Guardando suas devidas proporções, nas empresas a realidade imita a arte. Maurício e Philip no apresenta alguns tipos destes jogos tão comuns no ambiente empresaril:

Exemplos de jogos políticos

O chefe disse…

No jogo “O chefe disse” as pessoas invocam o nome de um executivo sênior para ajudá-las a conseguir o que desejam ou reforçar seus argumentos. Elas podem fazer um pedido e, em seguida, insinuar que o CEO ou algum outro executivo quer “que isto seja feito”. Em alguns caso, podem simplesmente garantir que se trata de um desejo do chefe. Em outras circunstâncias, podem contar uma história bonita para obter o mesmo resultado. O jogo transfere o poder do chefe para a pessoa que está pedindo algo e que, para isso, usa o nome do chefe. Em geral, este jogo ocorre naquelas culturas que a comunicação é muito formal e hierarquizada em que  ninguém dificilmente ousaria desafiar ou pedir explicações à alta administração. 

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Jogo Cópia

No jogo “Cópia”, o jogador envia cópias, em papel ou eletrônicas a um chefe, aos colegas ou a alguém mais que não está no âmbito normal de suas comunicações funcionais. Essa prática confere ao seu autor sensação de poder e ele se vale dela para aos outros a impressão de que é poderoso. O problema é que se trata de uma forma sub-reptícia de comunicação, que esconde outras motivações. Ela cria suspeitas, pois todo mundo sabe que o autor das cópias tem objetivos secretos.

Jogo Rebaixamento

Os gerentes deliberadamente rebaixam as previsões de vendas para entrar em futuras negociações. Os diretores sabendo que isso é uma prática comum, pois eles também foram gerentes e costumavam recorrer a esse jogo, entram em uma sequência de negociações, perdendo a confiança de seus gerentes e muitas vezes coagindo-os a aceitar uma previsão no final das negociações. Esse jogo cria gerentes “vitimizados” que não se sentem totalmente responsáveis pelo orçamento e podem até mesmo demonstrar que estavam certos desde o principio.

Os entrevistados da pesquisa disseram que, em média, 33%  do tempo das das pessoas nas empresas são gastos com jogos políticos. Tempo e energia que poderiam ser liberados para outras atividades. Para 20% dos entrevistados, na sua empresa, gasta-se mais de 50% do tempo com eles.

Maurício e Philip destacam que os jogos políticos impedem a aprendizagem, pioram o clima, diminuem a disposição para assumir riscos e formam uma barreira à mudança, afetando os principais processos de gestão. Seu principal efeito negativo é que eles são uma forma de desperdício. O tipo mais fácil de desperdício a considerar no que diz respeito aos jogos é simplesmente quanto tempo se perde.

Qual o antídoto para libertar o ambiente organizacional desse mal?

Não existe uma única resposta, mas de acordo com Maurício e Philip várias ações devem ser tomadas no cotiano corporativo para liberar a energia e o tempo na empresa.

  • Incentive a conversa em toda a orga-ni-zação: através de redes, cruzando funções e processos, e não apenas “para cima e para baixo” na organização. Garanta que as equipes sejam criadas com uma composição e mandatos de várias partes da organização. Esta é a melhor maneira de criar significado comum, coordenar as ações e evitar silos e o “apontar de dedos” que inevitavelmente vem com isso.
  • Desempenho é muito importante: mas certifique-se de que haja equilíbrio entre o curto e o longo prazos e que o clima que você transmite é de um senso de urgência pela importância de seus produtos e de sua qualidade para o mercado (e não de um sentimento de ansiedade e preocupação que torna as pessoas defensivas).
  • Construa um ambiente de trabalho mais humano: mais conversas, menos e-mails, mais estilos “pessoais” de comunicação, mais apreciativo e cuidadoso; e transmita mais confiança no potencial intrínseco de cada pessoa, desafiando-a constantemente a produzir um trabalho excelente e focando em seu desenvolvimento emocional e espiritual e em sua autonomia.
  • Identifique as questões relevantes: para a evolução de toda a organização e favoreça a formação de equipes multifuncionais e multiníveis para buscar soluções e executá-las em conjunto.
  • Repense a sua organização: ela parte de um ecossistema maior, interconectado, com colaboradores, clientes, fornecedores, comunidades, meio ambiente, etc…criando valor para todos os stakeholders.

Os jogos políticos servem para atender necessidades individuais, mas elemina valor para as pessoas e atinge os resultados organizacionais. Identificar que ninguém sai ganhando é o primeiro passo virar o jogo, ou melhor, terminar com este tipo de jogo no universo corporativo.

Adriana Elise é Psicóloga, especializada em Gestão Estratégica de Pessoas, atua com aprendizagem corporativa e desenvolvimento.