Equipes dão certo, D. Pedro I nos mostra como

Postado em jun 4, 2012 no Gestão de Pessoas

Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado.  Com esse título instigante Laurentino Gomes, em seu livro 1822, atiça nossa curiosidade e nos incentiva a saber como se deu a aventura destes personagens históricos que fazem parte do processo independência do nosso país, mas também nos apresenta de forma prática o funcionamento de uma equipe focada em resultados. 

Existe uma gigantesca diferença entre pessoas que atuam verdadeiramente juntas em um projeto e pessoas que trabalham todas ao mesmo tempo. A diferença essencial é a lacuna existente no resultado alcançado por um grupo e por uma equipe. No grupo é possível encontrar várias pessoas trabalhando ao mesmo tempo, cada uma por si, como por exemplo, em um mesmo departamento, área ou projeto. Já na equipe, as pessoas trabalham tendo clareza do propósito, dos objetivos e das metas a serem alcançadas com o seu trabalho ou projeto.

Segundo o estudo dos professores Haroldo Piancastelli, Horácio Faria e Marília Silveira, do Departamento de Enfermagem da UFMG, os resultados apresentados por uma equipe mostram-se mais efetivos e com maior grau de satisfação do colaborador. E é exatamente o resultado alcançado através da interação de uma equipe que faz com que as organizações invistam cada vez mais em transformar grupos em equipes dentro das organizações.

Toda equipe que se dispõe a trabalhar em conjunto enfrenta muitas dificuldades. Não foi diferente no caso dos nossos personagens históricos. Quem observasse o Brasil em 1822 teria razões de sobra para duvidar de sua viabilidade como país. Na véspera de sua independência, o Brasil tinha tudo para dar errado, de acordo com os dados pesquisados por Laurentino. Os analfabetos somavam 99% da população. O isolamento e as rivalidades entre os estados anunciavam uma guerra civil, que poderia resultar na fragmentação territorial. Para piorar a situação, ao voltar a Portugal, no ano anterior, o rei D João VI, havia raspado os cofres nacionais. O novo país nascia falido. Faltavam dinheiro, soldados, navios, armas ou munições para sustentar uma guerra contra os portugueses, que se prenunciava longa e sangrenta. Entretanto, o Brasil de hoje deve sua existência à capacidade de vencer obstáculos que pareciam insuperáveis em 1822.

O que fez com que essas pessoas conseguissem alcançar objetivo apesar de todo esse cenário complexo e pessimista? A diversidade no perfil da equipe pode ser uma das respostas. Cada um desses heróis eram formados de carne e osso, possuíam defeitos e qualidades. Exatamente os pontos fortes e demandas de desenvolvimento de cada um deles podem ter sido o diferencial no conjunto e na formação de um time de alta perfomance como pouco se viu na história. Eles não só conseguiram concretizar o sonho de independência do Brasil, mas ainda viabilizaram um projeto único de país no continente americano, cercado de repúblicas por todos os lados. Essa equipe manteve o Brasil como monarquia por mais de meio século.

Inspirar-se na história, filosofia e arte para olhar a gestão por um novo ângulo.

Laurentino Gomes, em seu livro, apresenta o papel dos nossos principais heróis da Independência. A partir destas caracteristica é possível identificar a riqueza de pontos fortes e demandas de desenvolvimento no perfil de cada um deles. O que nos leva a pensar como pessoas tão diferentes conseguiram trabalhar em conjunto em torno de um objetivo comum. Talvez a resposta esteja justamente aí, como em uma orquestra cada um desses personagens funcionou como instrumento que juntos formaram uma sinfonia complexa, mas com uma musicalidade inspirada em ideais, solidariedade, dinheiro e aventura.

José Bonifácio Andrada e Silva: homem sábio e experiente, foi responsável pelo planejamento estratégico do processo de independência. Fez alianças essenciais para libertar o Brasil de Portugal. Possuía visão sistêmica e futurista. Valorizava a educação como a única forma de estruturar um país, era contra a escravidão, defendia a reforma agrária e a tolerância política. Apesar de suas ideias democráticas e revolucionárias para época, em alguns momentos mostrava-se autoritário e manipulador. Movido a ideais.

Leopoldina: a princesa triste, chegou no Brasil apaixonada por Dom Pedro I e feliz por chegar a um país idílico, cheio de promessas de uma vida feliz. Aos poucos foi descobrindo que o cenário fazia  parte de sua fantasia, foi literalmente murchando diante da dura realidade dos trópicos e do perfil mulherengo do marido. Gostava de ajudar os pobres e pegava dinheiro com agiota para apoiar obras sociais. Teve um papel fundamental de apoio político a D. Pedro que a nomeou como chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil, com todos os poderes legais para governar o país durante a sua ausência. Ela teve prontidão e agiu rápido quando recebeu notícias que Portugal estava preparando uma ação contra o Brasil. Não pensou duas vezes e foi eficiente ao tomar a decisão de assinar o decreto de Independência, que seu marido oficializou no dia 7 de setembro com o célebre grito do Ipiranga. Movida a romantismo.

Lord Cochrane: o escocês que foi contratado por D. Pedro e teve participação decisiva na Guerra da Independência ao expulsar as tropas portuguesas no Norte e Nordeste. De forma inescrupulosa, no entanto, saqueou os habitantes de São Luis do Maranhão e, por fim, roubou um navio do Império. Tudo isso o transformou em herói maldito da história brasileira. Movido a dinheiro.

D. Pedro I: o príncipe romântico e aventureiro, que fez a independência do Brasil com apenas 23 anos, aparece em algumas obras como um herói marcial, sem vacilações ou defeitos. Em outras, como um homem inculto, mulherengo, boêmio e arbitrário. Seria possível traçar um perfil mais equilibrado do primeiro imperador brasileiro? Tentar decifrar o ser humano por trás do mito é uma tarefa encantadora. Movido a aventura.

Uma equipe de alta performance é formada por pessoas com defeitos e qualidades, utiliza os pontos fortes e a motivação de cada um dos seus componentes para alcançar o resultado. De acordo com Laurentino, a Independência foi apenas o primeiro passo de um caminho que se revelaria difícil, longo e turbulento nos dois séculos seguintes. As dúvidas a respeito da viabilidade do Brasil como nação coesa e soberana, capaz de somar os esforços e o talento de todos os seus habitantes, aproveitar suas riquezas naturais e pavimentar seu futuro persistiram ainda muito tempo depois da Independência.

Considerar o perfil das pessoas que vão trabalhar em um projeto, buscando identificar como os seus pontos fortes e fracos podem funcionar em conjunto é um dos grandes desafios da gestão de pessoas e pode fazer a diferença entre um grupo e uma equipe.

Adriana Elise é Psicóloga, especializada em Gestão Estratégica de Pessoas, atua com aprendizagem corporativa e desenvolvimento.